Alfabetização pelo Concreto: do sensorial ao simbólico com intencionalidade pedagógica

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Em um cenário onde as crianças são bombardeadas por estímulos visuais e tecnológicos, cresce o interesse por práticas que resgatem a corporeidade e a experiência sensível no processo de aprendizagem. Alfabetizar com base no concreto, utilizando materiais manipuláveis, não é apenas uma tendência educativa: é uma necessidade fundamentada em teorias cognitivas e pedagógicas. A BNCC (BRASIL, 2017) estabelece como direito da criança aprender com significado, por meio de múltiplas linguagens, o que coloca os materiais sensoriais como recurso essencial e não acessório. 

O lugar das vogais na alfabetização: muito além do reconhecimento

É comum encontrar propostas pedagógicas que iniciam a alfabetização com o ensino isolado das vogais. No entanto, reconhecer vogais fora de contexto não constitui alfabetização. Segundo Ferreiro e Teberosky (1999), a alfabetização implica compreender o sistema de escrita como representação da linguagem. O ensino das vogais deve estar articulado à consciência fonológica e ao uso funcional da linguagem. 

Vogais são elementos estruturantes no processo de aquisição da leitura e escrita. Elas aparecem em praticamente todas as palavras da língua portuguesa, o que justifica seu destaque nas primeiras propostas didáticas. Mas seu ensino só é significativo se inserido em práticas que favoreçam a escuta ativa, a discriminação auditiva e a produção de sentido. Por isso, atividades que associam imagem, som e manipulação favorecem o avanço nos estágios da hipótese silábica para a alfabética. Por exemplo, quando a criança está na hipótese silábica sem valor sonoro, ela acredita que cada letra representa uma sílaba, mesmo que as letras escolhidas não correspondam aos sons da palavra. Já na hipótese silábica com valor sonoro, ela começa a utilizar letras com alguma correspondência sonora, ainda que de forma incompleta, como escrever “GT” para “gato”. À medida que avança para a hipótese silábico-alfabética, a criança combina letras com e sem valor sonoro, escrevendo “GTO”. Na hipótese alfabética, ela já compreende que cada fonema é representado por uma letra e escreve corretamente “gato”., conforme descrito por Ferreiro e Teberosky (1999). 

Mãos que pensam: a alfabetização no corpo e no espaço

Montessori (2000) defendia que o movimento é essencial para o pensamento. Quando a criança manipula letras, associa sons a imagens e constrói palavras com as próprias mãos, ela está não apenas memorizando, mas compreendendo. O Alfabeto Animal Magnético da MMP é um exemplo concreto dessa proposta. Cada letra é acompanhada de um animal, permitindo à criança relacionar a letra “G” ao som /g/ e à figura do gato, por exemplo. O cérebro infantil aprende com mais profundidade quando ativado em múltiplas frentes: visual, auditiva e tátil (DAMÁSIO, 2000). 

Ao utilizar as Figuras para Alfabetização em atividades com palavras geradoras, a aprendizagem ganha camadas. Tomemos a palavra “gato”: ela tem um valor simbólico reconhecível para a criança (animal de estimação), pode ser representada com imagem e escrita, e permite a análise fonêmica dos sons /g/ /a/ /t/ /o/. Quando a criança monta essa palavra com o Alfabeto Móvel em EVA, ela vivencia o processo de construção da escrita. Essa experiência articula corpo, emoção, som e símbolo. 

Palavra geradora: vínculo afetivo e função social

Freire (1989) propõe o uso de palavras geradoras como ponto de partida para o processo de alfabetização. O termo remete a palavras significativas para o grupo, com carga simbólica, afetiva e social. Mas sua potência vai além do reconhecimento funcional: a palavra geradora inaugura um território de aprendizagem onde a criança se encontra com o mundo simbólico por meio da linguagem. 

Ao brincar com a palavra — seja através do som, da imagem, da representação gráfica ou da manipulação com o Alfabeto Móvel — o estudante não apenas a reproduz, mas se apropria dela com criatividade. Pode rearranjá-la, trocando a ordem das letras, misturando-a com outras, criando composições novas. Assim, a experiência estética da palavra se manifesta: o aprender se torna prazeroso, sensível, cheio de possibilidades. 

Em um cenário onde a palavra “gato” aparece não apenas como nome de um animal, mas como imagem em cartões, como peça tátil em EVA e como som produzido e repetido, a criança explora a linguagem em camadas. Ela a escreve, a fala, a sente. Produz outras como “gata”, “gatinhos”, “gatona”, e inventa histórias com elas. Isso é mais do que alfabetizar; é abrir a porta do simbólico, é permitir que a criança brinque com a linguagem e se constitua sujeito por meio dela. 

Essa vivência, quando realizada com intencionalidade pedagógica e materiais adequados, torna-se um campo fértil para a construção da autoria, da escuta e da criação. É essa dimensão que Freire revela ao propor que a alfabetização seja uma prática de liberdade. 

Materiais concretos como direito e estratégia

As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (BRASIL, 2013) defendem a importância de respeitar os tempos e modos de aprendizagem dos sujeitos concretos, reconhecendo que o conhecimento é mediado por experiências vividas. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei n. 9.394/96) em seu Art. 3º afirma o princípio da igualdade de condições para acesso e permanência, o que inclui o uso de recursos pedagógicos adequados. 

O uso de materiais como os da MMP, desenvolvidos com base em estudos de neurociência e didática, favorece uma alfabetização ativa, sensível e plural. O Alfabeto Móvel, as Figuras para Alfabetização e o Alfabeto Animal Magnético não apenas ensinam letras, mas ensinam a pensar, a relacionar e a significar. 

Alfabetizar é tocar, ouvir, sentir e compreender

A alfabetização pelo concreto é uma prática que reconhece que a criança produz cultura, cria símbolos, reinventa sentidos e participa ativamente da construção do conhecimento. Não se trata apenas de ensinar letras, mas de criar territórios de aprendizagem nos quais o estudante possa tocar, experimentar, brincar e se emocionar com a linguagem. 

É nesse encontro entre o sensorial e o simbólico que o processo de alfabetizar se transforma em um ato estético, onde a palavra ganha textura, som, cor e sentido. A escuta ativa, o movimento das mãos, o olhar curioso e o encantamento pela descoberta transformam cada atividade em uma experiência potente de apropriação do mundo. 

Como nos lembra Paulo Freire (1989), alfabetizar é um ato profundamente político e poético: é ensinar a ler o mundo, e não apenas o texto. Ao oferecer condições para que a palavra seja vivida em sua dimensão afetiva, social e simbólica, a alfabetização pelo concreto torna-se um caminho para a formação de sujeitos autônomos, criativos e conscientes. 

Referências 

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação, 2017. 

BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica. Ministério da Educação, 2013. 

BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, 1996. 

DAMÁSIO, Antonio R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 

FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999. 

FREIRE, Paulo. A importancia do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989. 

MONTESSORI, Maria. A mente absorvente. São Paulo: Ed. WMF Martins Fontes, 2000. 

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