Matemática nas férias: brincar, aprender e criar memórias

As férias costumam ser vistas como pausa: pausa nos horários, nas tarefas e nas cobranças escolares. E essa pausa é necessária. A infância também precisa de tempo livre, convivência, descanso e brincadeira.

Mas isso não significa que a aprendizagem deixa de acontecer.

Quando a criança joga, conversa, combina regras, cria estratégias e compartilha momentos com a família, ela continua construindo saberes. A diferença é que, nas férias, a aprendizagem pode acontecer sem a pressão da prova, da nota ou do conteúdo a ser vencido. Ela aparece no vínculo, na experiência e na memória.

A Base Nacional Comum Curricular reconhece as interações e a brincadeira como eixos estruturantes da Educação Infantil e, no Ensino Fundamental, destaca a importância do letramento matemático, da resolução de problemas, da argumentação, da comunicação e da representação (BRASIL, 2018). Isso nos ajuda a compreender que a matemática não vive apenas no caderno: ela também aparece nas situações cotidianas, nas relações e nos desafios que fazem sentido para a criança.

Aprendizagem significativa também acontece fora da escola

A teoria da aprendizagem significativa, proposta por David Ausubel, sustenta que aprender envolve relacionar novos conhecimentos aos conhecimentos prévios do estudante. Ou seja, uma aprendizagem se torna mais potente quando faz sentido para quem aprende e se conecta ao que a criança já vive, sabe, sente e experimenta (AUSUBEL, 2003).

Nas férias, esse princípio ganha força. Quando uma criança joga com pais, irmãos, avós ou primos, ela não está apenas “passando o tempo”. Ela está relacionando regras, estratégias, contagens, escolhas e consequências a uma experiência afetiva.

É por isso que o material concreto tem tanta potência: ele transforma uma ideia matemática em algo que pode ser tocado, movimentado, testado e compartilhado.

O brincar como território de saberes

Brincar é uma forma de pensar.

Vygotsky compreende a aprendizagem como um processo social, mediado pelas relações, pela linguagem e pela interação com o outro. Nessa perspectiva, a criança aprende na convivência, nas trocas e nos desafios que consegue enfrentar com apoio, ampliando suas possibilidades de desenvolvimento (VYGOTSKY, 1991).

Kishimoto, referência brasileira nos estudos sobre jogo, brinquedo e brincadeira na educação, também contribui para essa discussão ao defender o jogo e a brincadeira como experiências importantes para o desenvolvimento infantil e para a apropriação do conhecimento (KISHIMOTO, 2011).

Nesse sentido, brincar não é o oposto de aprender. Muitas vezes, é justamente pelo brincar que a criança organiza pensamentos, testa hipóteses, cria estratégias e dá sentido ao que aprende.

Três jogos, muitas experiências matemáticas

Durante as férias, materiais como Xadrez Magnético, Avançando com o Resto e Subida Maluca Magnético, da MMP, podem transformar momentos em família em experiências matemáticas significativas.

No Xadrez Magnético, a criança desenvolve raciocínio lógico, planejamento, antecipação e tomada de decisão. Cada movimento exige observar o tabuleiro, prever possibilidades e pensar nas consequências: “se eu mover essa peça, o que pode acontecer depois?”. A matemática aparece na estratégia, na organização espacial e na resolução de problemas.

Em Avançando com o Resto, o cálculo ganha função dentro do jogo. A divisão e o resto deixam de ser apenas procedimentos escritos e passam a orientar decisões: o resultado influencia o avanço, a estratégia e o percurso. A criança percebe, na prática, que calcular serve para agir melhor dentro de uma situação.

Já em Subida Maluca Magnético, a matemática aparece no movimento pelo tabuleiro: contar casas, comparar posições, avançar, recuar, observar percursos e lidar com mudanças inesperadas. A cada jogada, a criança precisa interpretar onde está, para onde pode ir e como reorganizar sua estratégia.

Esses jogos convidam a família a participar da aprendizagem sem transformar as férias em aula. O adulto não precisa assumir o lugar de professor. Muitas vezes, basta jogar junto, perguntar, ouvir a estratégia da criança e incentivar que ela explique suas escolhas.

Quando a família joga junto, a matemática ganha memória

Há aprendizagens que ficam marcadas porque aconteceram em um contexto afetivo.

A criança pode esquecer uma lista de exercícios, mas lembrar da partida em que venceu o avô no xadrez, da vez em que explicou uma regra para o irmão, da jogada inesperada no tabuleiro ou da risada em família depois de uma escolha arriscada.

Essas memórias também educam.

Elas ajudam a criança a construir uma relação mais positiva com a matemática. Em vez de vê-la apenas como obrigação escolar, ela começa a percebê-la como parte da vida: nas escolhas, nos jogos, nas estratégias, nas conversas e nas relações.

A escola tem intenção. A vida consolida aprendizagens.

A escola tem um papel fundamental: planeja, organiza, sistematiza e dá intencionalidade pedagógica aos saberes. É nela que os conceitos são aprofundados, acompanhados e desenvolvidos com progressão.

Mas a aprendizagem não se limita aos muros da escola. Como nos lembra Vygotsky (1991), o desenvolvimento se constitui nas relações sociais, nas interações e nas mediações que a criança vivencia. Por isso, aquilo que a escola propõe com intencionalidade pedagógica pode continuar ganhando sentido nas experiências familiares, nas brincadeiras e nas situações cotidianas.

Nas férias, a matemática pode estar em uma partida de Xadrez Magnético, em uma divisão com resto no Avançando com o Resto, em uma disputa divertida no Subida Maluca Magnético ou em uma conversa entre gerações ao redor da mesa.

Porque aprender matemática também é isso: criar sentido, criar vínculos e criar memórias.

E, quando o brincar encontra o material concreto, a infância ganha espaço para aprender de um jeito mais leve, mais afetivo e mais significativo.

Referências

AUSUBEL, David P. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Plátano Edições Técnicas, 2003.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 2011.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

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