Recomposição em Matemática: o papel do material concreto na aprendizagem

O material concreto transforma a avaliação em uma oportunidade de aprendizagem, permitindo identificar dificuldades, planejar intervenções e fortalecer o desenvolvimento matemático dos estudantes.

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O material concreto pode ajudar o estudante a mobilizar o que já sabe e, ao mesmo tempo, revelar ao professor o que ainda precisa ser retomado.

No retorno às aulas, é comum recorrer à revisão de conteúdos e a novas listas de exercícios. Essas ações podem fazer parte do planejamento, mas recompor aprendizagens exige algo além de repetir o que já foi ensinado. 

Recompor significa identificar o que os estudantes já construíram, compreender onde estão as dificuldades e organizar intervenções que permitam novos avanços. 

O Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens reforça a articulação entre currículo, avaliação, práticas pedagógicas, materiais e acompanhamento. Nessa perspectiva, o diagnóstico não termina na identificação do erro. Ele precisa orientar uma decisão sobre o ensino (BRASIL, 2025). 

A pergunta central deixa de ser apenas “qual conteúdo revisar?” e passa a ser: 

O que o estudante já compreende e qual relação ainda precisa construir? 

O material concreto como articulador da recomposição

O material concreto ganha força quando é utilizado em situações que exigem do estudante mais do que seguir um modelo. Ele precisa construir, comparar, calcular, classificar, explicar e rever estratégias. 

Essa ideia se aproxima da Teoria das Situações Didáticas, de Guy Brousseau, segundo a qual a aprendizagem matemática pode acontecer em situações nas quais o conhecimento se torna necessário para enfrentar um problema (BROUSSEAU, 1997). 

A manipulação, porém, não é o ponto final. Bruner destaca a relação entre ação, imagem e símbolo, enquanto Duval mostra que compreender Matemática envolve transitar entre diferentes representações. Por isso, o estudante precisa agir sobre o material, registrar o que fez, explicar suas escolhas e avançar para a linguagem matemática (BRUNER, 1966; DUVAL, 2017). 

É esse percurso que torna o material concreto um articulador entre diagnóstico, intervenção e aprendizagem. 

Geoplano: construir e comparar

Com o Geoplano, o professor pode propor: 

Construa duas figuras diferentes com o mesmo perímetro. Depois, compare suas áreas e explique como pensou. 

Enquanto os estudantes constroem, o professor observa diferentes estratégias. Alguns podem contar pinos em vez de segmentos. Outros podem acreditar que figuras com o mesmo perímetro também possuem a mesma área. Há ainda aqueles que calculam, desenham ou trabalham por tentativa. 

A proposta permite identificar se a dificuldade está na contagem, na compreensão das medidas, na relação entre área e perímetro ou na justificativa da resposta. 

Depois, o desafio pode ser invertido: construir figuras com a mesma área e perímetros diferentes. Assim, o mesmo material permite observar, intervir e verificar se houve avanço. 

Cabo de Guerra: calcular e decidir

No Jogo Cabo de Guerra, o movimento do marcador cria oportunidades para trabalhar contagem, comparação, adição, subtração e antecipação de resultados. 

Durante a partida, o professor pode perguntar quantas casas faltam, qual foi a diferença entre os lançamentos ou qual resultado seria mais favorável naquele momento. 

Um estudante pode contar casa por casa; outro pode calcular mentalmente; outro pode compreender a operação, mas se confundir com a direção do movimento. 

Essas respostas mostram diferentes pontos de partida. Ao alterar as regras — utilizando o valor de um dado, a soma ou a diferença entre dois resultados — o professor pode ajustar o desafio à aprendizagem que deseja investigar. 

Sólidos Geométricos: observar e classificar

Com os Sólidos Geométricos, uma proposta de recomposição pode começar com uma pergunta aberta: 

Como você organizaria esses sólidos em grupos? Explique o critério escolhido. 

Alguns estudantes podem considerar cor ou tamanho. Outros podem observar se as peças rolam, se possuem superfícies planas ou curvas ou quantas faces, vértices e arestas apresentam. 

Antes de apresentar uma classificação formal, o professor escuta os critérios utilizados e propõe novas formas de organizar os mesmos objetos. 

A experiência pode avançar para desenhos, quadros comparativos e relações entre os sólidos e as figuras planas presentes em suas faces. O material, assim, articula observação, linguagem, classificação e representação. 

Avaliar enquanto o estudante aprende

Nas três situações, o material concreto cumpre uma dupla função: apoia a construção do conhecimento e produz evidências para o professor. 

A avaliação formativa acontece quando essas evidências são utilizadas para ajustar o ensino. O professor observa como o estudante começou, que estratégia escolheu, como registrou e se conseguiu explicar sua decisão (BLACK; WILIAM, 1998). 

A partir disso, pode propor outra pergunta, alterar o desafio, comparar estratégias ou apresentar uma nova representação. 

O processo pode ser resumido em quatro movimentos: 

Observar, interpretar, intervir e acompanhar. 

Recompor é criar novas possibilidades

A recomposição não deve limitar o estudante a tarefas repetitivas nem tratar as habilidades como conhecimentos isolados. 

Quando o material concreto é articulado a um problema, ao registro, à explicação e à avaliação, ele torna visível o pensamento do estudante e ajuda o professor a planejar intervenções mais precisas. 

Recompor não é repetir o mesmo caminho. É reconhecer o ponto de partida e construir novas possibilidades para aprender Matemática. 

Referências 

BLACK, Paul; WILIAM, Dylan. Assessment and Classroom Learning. Assessment in Education, v. 5, n. 1, 1998. 

BRASIL. Presidência da República. Decreto nº 12.391, de 28 de fevereiro de 2025. Institui o Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens. 

BROUSSEAU, Guy. Theory of Didactical Situations in Mathematics. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 1997. 

BRUNER, Jerome S. Toward a Theory of Instruction. Cambridge: Harvard University Press, 1966. 

DUVAL, Raymond. Understanding the Mathematical Way of Thinking. Cham: Springer, 2017. 

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