Material concreto na Matemática: manipular é importante, mas não é o ponto de chegada
Materiais concretos podem transformar a maneira como os estudantes compreendem a Matemática, mas sua presença em sala não garante, por si só, aprendizagem. O verdadeiro potencial está nas relações que o aluno consegue estabelecer, explicar e representar a partir da experiência
- MMP Materiais Pedagógicos
- setembro 25, 2026
- 6:30 pm
Tocar, mover, comparar e construir podem abrir caminhos importantes para a aprendizagem. Mas o que transforma a experiência em conhecimento matemático é aquilo que o estudante consegue perceber, explicar e representar a partir dela.
Uma caixa de materiais chega à sala. As peças vão para as mesas, os estudantes começam a mexer, testar combinações e fazer descobertas. A aula parece viva, participativa, diferente de uma sequência de exercícios no caderno.
Mas há uma pergunta que precisa acompanhar esse movimento: o que os estudantes estão compreendendo enquanto manipulam?
Essa pergunta ajuda a separar duas coisas que, às vezes, aparecem como sinônimas. Utilizar um material concreto não significa, por si só, construir uma aprendizagem. O recurso pode favorecer a compreensão, mas isso depende da situação proposta, das perguntas feitas pelo professor e das relações que o estudante consegue estabelecer.
A própria Base Nacional Comum Curricular reconhece o papel de recursos como ábacos, jogos, malhas, calculadoras e softwares na aprendizagem matemática. Ao mesmo tempo, faz uma ressalva importante: esses recursos precisam estar integrados a situações que promovam reflexão, sistematização e progressiva formalização dos conhecimentos.
É aí que começa a diferença entre simplesmente manipular e aprender com aquilo que se manipula
O concreto ajuda a enxergar aquilo que ainda parece abstrato
Pense em uma criança que está tentando compreender o sistema de numeração decimal.
No papel, ela pode aprender que dez unidades formam uma dezena. Pode inclusive repetir essa afirmação e realizar corretamente algumas contas. Mas, ao agrupar dez peças e trocá-las por uma representação de dezena, uma relação que antes existia apenas na escrita ganha forma diante dela.
Com frações acontece algo semelhante. Dizer que dois quartos representam a mesma quantidade que um meio é diferente de colocar as duas representações lado a lado, comparar, sobrepor e discutir o que mudou e o que permaneceu.
Na geometria, construir figuras, comparar superfícies ou desmontar um sólido pode tornar visíveis relações que uma fórmula apresentada pronta não consegue mostrar sozinha.
O valor do material está justamente nessa possibilidade de dar suporte à construção de significados.
Nos Anos Iniciais, a BNCC reforça que a aprendizagem matemática está relacionada à compreensão e às conexões que os estudantes estabelecem entre os objetos matemáticos, seu cotidiano e diferentes temas da própria Matemática.
Não se trata, portanto, de tornar tudo concreto para evitar o abstrato. Trata-se de criar pontes para que o estudante consiga chegar até ele.
A pergunta do professor pode ser mais importante que a peça
Imagine duas turmas utilizando exatamente o mesmo material.
Na primeira, o professor mostra como organizar as peças, os alunos reproduzem o procedimento e registram a resposta.
Na segunda, o professor apresenta um problema, deixa que os estudantes experimentem e começa a circular pela sala perguntando: “Como vocês pensaram?”, “Existe outro jeito?”, “Como podemos saber se isso funciona sempre?”, “O que mudou quando vocês reorganizaram as peças?”
O recurso é o mesmo. A experiência de aprendizagem, não.
Quando o estudante precisa levantar hipóteses, comparar estratégias, explicar escolhas e rever uma ideia, o material deixa de ser apenas algo que ele toca. Passa a fazer parte do seu raciocínio.
Essa perspectiva também aparece em propostas de formação de professores voltadas ao uso de materiais manipuláveis, que os tratam como estratégias para favorecer a compreensão de conceitos matemáticos, e não como recursos isolados da intencionalidade pedagógica.
Por isso, talvez uma das perguntas mais úteis ao planejar uma aula não seja “qual material vou usar?”, mas:
Do “eu fiz” para o “eu entendi”
O momento mais importante pode acontecer depois que a manipulação termina.
É quando o estudante precisa desenhar aquilo que construiu, escrever uma estratégia, explicar oralmente uma relação ou resolver uma nova situação sem depender exatamente da mesma organização das peças.
Essa passagem ajuda o professor a perceber se houve compreensão ou apenas reprodução.
Um estudante pode montar corretamente uma representação porque imitou o colega. Outro pode cometer um erro na montagem, mas apresentar uma hipótese matemática interessante ao explicar o que pensou. A observação desses processos oferece pistas que a resposta final, sozinha, muitas vezes não mostra.
É também por isso que materiais concretos podem ser especialmente úteis em processos de recomposição das aprendizagens. A atual matriz curricular priorizada do MEC, por exemplo, prevê o uso de materiais manipuláveis em expectativas de aprendizagem relacionadas à quantificação e representação numérica, justamente como uma entre diferentes formas de representar e compreender conceitos.
Quando existe uma lacuna, voltar simplesmente ao mesmo exercício pode não ser suficiente. Às vezes, é preciso oferecer outra forma de entrar no conceito.
O material não substitui o pensamento. Ele ajuda a colocá-lo em movimento
Esse princípio acompanha a trajetória da MMP e continua presente em seu novo momento.
A aprendizagem concreta permanece como base, mas passa a estar conectada a uma proposta mais ampla, na qual materiais, formação docente, tecnologia e acompanhamento da aprendizagem precisam conversar entre si. O rebranding da MMP explicita justamente essa ampliação: o produto físico continua relevante, mas passa a integrar um conjunto maior de experiências e soluções pedagógicas.
Isso também ajuda a compreender por que falar em material concreto hoje não significa defender uma sala de aula sem tecnologia ou uma oposição entre “fazer com as mãos” e “aprender pelo digital”.
O desafio é outro: compreender qual recurso ajuda melhor o estudante naquele momento da aprendizagem e com qual finalidade.
Em algumas situações, será importante manipular. Em outras, desenhar, registrar, assistir a uma explicação, testar em um ambiente digital ou discutir uma estratégia com os colegas.
A aprendizagem não acontece porque um desses recursos está presente. Ela acontece quando eles ajudam o estudante a estabelecer relações cada vez mais elaboradas.
Talvez, então, o melhor indicador de uma boa experiência com material concreto não seja uma sala cheia de peças sobre as mesas.
É chegar ao momento em que o estudante consegue olhar para aquilo que fez e dizer, com suas próprias palavras: